MEDEIA
– Ó Júpiter todo-poderoso, é o momento em que deves encher o céu inteiro com teu trovão: estende o braço direito, prepara os teus fogos vingadores e sacode o firmamento todo dilacerando as nuvens. É inútil que a tua mão fique incerta na escolha para lançar suas setas: seja qual for a vítima, eu ou ele, morrerá um criminoso. Acertando em nós, teu raio não poderá errar.

JASÃO
– Vê, afinal, se podes voltar a ideias razoáveis e a propósitos tranquilos. Se há, na casa de meu sogro, algo que possa abrandar teu exílio, podes pedi-lo.

MEDEIA
– Minha alma, tu o sabes, pode desprezar as riquezas dos reis: já tem esse hábito. Seja-me permitido, somente, levar comigo, como companheiros de exílio, os meus filhos, a fim de que possa chorar sobre o seu peito. Tu terás outros filhos.

JASÃO
– Desejaria atender a teu pedido, juro-te; mas o amor paterno mo proíbe. Se quisesse obrigar-me a este sacrifício o rei mesmo, meu sogro, não obteria nada. Eles são minha razão de vida, eles são a consolação desta alma roída pelos sofrimentos. Renunciaria, antes, ao respirar, aos meus próprios membros, à luz.

MEDEIA
[Como falando a si mesma] Ele ama de tal maneira os seus filhos? Muito bem. Descobri o ponto vulnerável. [A Jasão] Pelo menos, indo embora, seja-me concedido dar a eles as supremas recomendações; possa eu abraçá-los pela última vez: tudo isso será um grande favor. E, por fim, peço-te a graça de apagar no teu coração as palavras que eu gritei, na agitação de meu rancor. Conserva, antes, a lembrança de minha volta aos melhores sentimentos: de tua memória sejam afastadas as recordações de minha ira.

JASÃO
– Tudo isso já está longe de meu espírito. Suplico-te: domina tua ardente alma, modera-a. A calma abranda as calamidades.
[Sai]

MEDEIA
– Foi-se. É possível? Tu podes ir embora e esquecer-me? E esquecer tudo o que eu fiz? Já eu saí da tua memória? Não, nunca sairei. Vamos, Medeia: chama o poder de teus malefícios. O fruto de teus crimes é não considerar mais nada como criminoso. Apenas há lugar para a astúcia. Eles têm medo de mim. é preciso, então, atacar lá onde não seja possível haver desconfiança. Vamos, tem audácia, põe em prática tudo o que é possível a Medeia: até o que é impossível.

Autor: Sêneca
Obra: Medeia
Trecho: versos 531-567
Tradução: Guilio Davide Leoni
Imprenta: Coleção “Os pensadores”, Abril Cultural, 1985

* O texto aqui reproduzido constitui uma expressão cultural da Antiguidade latina e foi selecionado como amostra exclusivamente para fins de pesquisa. Seu conteúdo não reflete a opinião do professor responsável pela postagem.

Categoria: Teatro latino , Textos latinos

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