Anterástilis
– Ai, por castor, quando vejo a roupa de nós duas, não fico contente com o modo como estamos vestidas.

Adelfásia
– Ao contrário, estamos sem dúvida muito bem. Pois, para o ganho do amo e nosso, estamos suficientemente bem vestidas. Pois não é possível, eu sei, haver ganho se não vem depois do gasto e, no entanto, o ganho não se mantém, se o gasto o supera, minha irmã. Por isso, é mais do que suficiente aquilo que é suficiente de se ter e não é suficiente o que é mais do que é suficiente.

Agorástocles
– Que os deuses me amem a ponto de eu preferir que ela me ame mais do que eles, Milfião. Pois aquela mulher é capaz de levar uma pedra a amá-la.

Milfião
– Por pólux, realmente nisso não estás mentindo, pois tu és mais tonto que uma pedra para amá-la.

Agorástocles
– Mas vê bem, nunca esfreguei a cabeça com ela.

Milfião
– Vou então correr para um tanque ou para um lago buscar barro.

Agorástocles
– Por que isso é necessário?

Milfião
– Eu vou dizer: para esfregar na tua cabeça e na dela.

Agorástocles
– Vai para a desgraça.

Milfião
– Já estou lá.

Agorástocles
– Tu continuas.

Milfião
– Me calo.

Agorástocles
– Mas quero que seja para sempre.

Milfião
– Sem dúvida, amo, me provocas com minha brincadeira e fazes graça.

Anterástilis
– Creio, irmã, que te pareces agora vestida com elegância suficiente; mas quando forem comparados os modelos das outra meretrizes, aí tu terás dor no coração, se acaso avistares alguma mais bem vestida.

Adelfásia
– Nunca nasceu em mim a inveja nem a maldade, minha irmã. Prefiro estar vestida com bom caráter do que com muito ouro. O ouro, esse é obtido por sorte, o bom caráter, por natureza. Eu quero muito mais ser considerada boa do que afortunada. À meretriz convém administrar mais o pudor do que a púrpura: à meretriz convém mais administrar o pudor do que ouro. Os feios costumes sujam um belo vestido pior do que a lama, os bons costumes, pelos feitos, compensam facilmente um vestido feio.

Agorástocles
– Ei, tu, queres fazer uma coisa lépida e festiva?

Milfião
– Quero.

Agorástocles
– Podes me escutar?

Milfião
– Posso.

Agorástocles
– Vai para casa e te enforca.

Milfião
– Por que motivo?

Agorástocles
– Porque nunca mais ouvirás tantas palavras tão doces. Que necessidade tens de ter vivido? Me escuta agora e te enforca.

Milfião
– Só se tu estiveres comigo pendurado como um cacho de uva passa.

Agorástocles
– Mas eu a amo.

Milfião
– E eu, comer e beber.

Autor: Plauto
Obra: O cartaginês
Trecho: versos 283-313
Tradução: José Dejalma Dezotti
(inédita)

* O texto aqui reproduzido constitui uma expressão cultural da Antiguidade latina e foi selecionado como amostra exclusivamente para fins de pesquisa. Seu conteúdo não reflete a opinião do professor responsável pela postagem.

Categoria: Teatro latino , Textos latinos

Tags: