1.1. Os acontecimentos que se passaram nos céus durante o dia 13 de outubro, primeiro ano de uma nova era de felicidade, eis o que eu quero transmitir à história. E sem ressentimento nem simpatias. Aqui será apresentada a verdade: se por acaso alguém me perguntar de onde tirei estas notícias tão exatas, em primeiro lugar, se não tiver vontade, não responderei. Quem poderá forçar-me a isso? Eu sei que me tornei livre no mesmo instante em que acabou os seus dias aquele que tinha demonstrado a verdade do provérbio: Um homem nasce ou rei ou idiota.

1.2. Pelo contrário, se me agradar responder, direi aquilo que me vier aos lábios. Quem exigiu de um historiador deposições juradas? Mas se for preciso apresentar uma testemunha, dirija-se o leitor a quem viu subir Drusila aos céus: ele confirmará ter visto também Cláudio percorrer o mesmo itinerário “passinho por passinho”. Queira ou não, ele deve ver tudo o que acontece nos céus: é inspetor da Via Ápia, onde passaram — é notório — também o divo Augusto e Tibério César, quando foram para os deuses.

1.3. Se o interrogarmos, dirá tudo direitinho; mas a sós: no meio de muita gente não abre a boca, pois, desde o dia em que no Senado jurou ter visto Drusila subir aos céus — e, como agradecimento por tão bela notícia, ninguém quis acreditar aquilo que ele tinha visto —, declarou solenemente que nunca mais faria nenhuma revelação, mesmo que visse matar um homem no meio do Foro. Tudo o que ele me contou, aqui vou transcrever sem mudar uma vírgula: e que tudo isso possa transformar-se para ele em saúde e felicidade.

2.2. (…) Talvez compreender-se-á melhor se eu disser assim: o mês era de outubro; o dia, 13. Não sei a hora exata: é mais fácil pôr de acordo os filósofos do que os relógios. Bom, a hora: entre meio-dia e a primeira badalada.

2.3. – Oh! homem sem polidez! – dirá o leitor. – Em geral, os poetas não se contentam em descrever a aurora e o pôr do sol: incomodam até o meio-dia. E tu queres deixar de lado uma hora tão bela?

Autor: Sêneca
Obra: Apocoloquintose do divino Cláudio
Tradução: Guilio Davide Leoni
Imprenta: Coleção “Os pensadores”, Abril Cultural, 1985

* O texto aqui reproduzido constitui uma expressão cultural da Antiguidade latina e foi selecionado como amostra exclusivamente para fins de pesquisa. Seu conteúdo não reflete a opinião do professor responsável pela postagem.

Categoria: Ficção em prosa latina , Textos latinos

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