3 (…) Uma coisa, Varrão, nunca me veio à mente antes de hoje requerer a ti. Mas agora, depois que entrei a confiar em obras aqueles assuntos que junto contigo aprendi e a ilustrar com as letras latinas a célebre filosofia antiga nascida de Sócrates, procuro saber qual é o motivo por que, embora escrevas muitas coisas, deixas de lado este gênero, principalmente quando não só tu próprio nele te sobressais, como também esse estudo e todo esse assunto anteceda em muito aos demais estudos e conhecimentos.

4 Então ele:
– Requeres um assunto frequentemente deliberado e muito agitado por mim. Assim pois responderei sem hesitação, mas direi as coisas que estão ao meu alcance, porque acerca desse mesmo assunto, como disse, pensei muito e por muito tempo.
Pois como eu visse que a filosofia foi diligentissimamente desenvolvida pelas letras gregas, avaliei se alguns dos nossos se retivessem em seu estudo, se tivessem sido instruídos pelas doutrinas gregas, haveriam de ler as obras gregas antes que as nossas; se, porém, se afastassem das ciências e disciplinas dos gregos, nem sequer haveriam de cuidar desses aspectos, que, sem a erudição grega, não podem ser compreendidos.
Assim eu não quis escrever essas coisas que os indoutos não pudessem entender e que os doutos não cuidassem de ler.

5 Vês, porém, tu próprio essas mesmas coisas.
Aprendeste, com efeito, que não podemos ser semelhantes a um Amafínio ou a um Rabírio, que, sem o emprego de nenhuma arte, discutem sobre temas postos diante dos olhos em linguagem vulgar, nada definem, nada separam, nada concluem de uma apta interrogação, julgam, enfim, que não há nenhuma arte nem de dizer nem de dissertar.
Nós, porém, somos obrigados a usar os preceitos dos dialéticos e dos oradores também, visto que os nossos julgam ser virtude um e outro valor, e esses preceitos os doutos, como disse, preferirão buscar nos gregos, os indoutos nem mesmo de nós receberão, de modo que todo o trabalho é empreendido em vão.

6 Quanto à física, se eu estivesse de acordo com Epicuro, isto é, com Demócrito, eu poderia escrevê-la de um modo tão plano como Amafínio.
Qual é, pois, a importância, depois que tiveres suprimido as causas das coisas eficientes, de falar sobre o encontro fortuito dos corpúsculos (pois é assim que ele chama os átomos)?
Tu conheces a nossa física; esta, por consistir de causa eficiente e da matéria que a causa eficiente modela e forma, deve agregar também a geometria; e esta, com que palavras alguém poderia explicá-la ou levar alguém a compreendê-la?
Já sobre essas coisas próprias da vida e dos costumes e sobre as coisas que devem ser buscadas ou evitadas, eles simplesmente pensam que o bem do gado e do homem são o mesmo; entre os nossos não ignoras quanta sutileza que há.

Autor: Cícero
Obra: Acadêmicas
Trecho: Livro I, capítulos 3-6
Tradução: José Dejalma Dezotti
(inédita)

* O texto aqui reproduzido constitui uma expressão cultural da Antiguidade latina e foi selecionado como amostra exclusivamente para fins de pesquisa. Seu conteúdo não reflete a opinião do professor responsável pela postagem.

Categoria: Filosofia latina , Textos latinos

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