7 Mas assim como Aristóteles, homem de sumo talento, conhecimento, eloquência, movido pela glória do orador Isócrates, começou a ensinar os jovens a falar e a unir a sabedoria com a eloquência, assim também me agrada não abandonar a antiga paixão pela eloquência e aplicar-me nesta arte maior e mais rica. Pois eu sempre julguei que a filosofia perfeita é esta que é capaz de falar das mais importantes questões de modo copioso e elegante; a esse exercício eu me dediquei com tanto afinco que ousei já ter até mesmo dissertações à maneira dos gregos.
De modo que, pouco depois de tua partida, como estivessem comigo na chácara de Túsculo muitos amigos, quis experimentar de que eu era capaz nesse campo. Assim como antes eu me exercitava em declamar as causas, o que ninguém fez por mais tempo do que eu, assim também agora eu tenho esta declamação senil. Eu mandava pôr um tema, sobre o qual alguém desejava ouvir; e sentado ou andando discutia-o.
8 E assim reuni no mesmo tanto de livros as, como os gregos chamam, “dissertações” de cinco dias. Era assim que se procedia: depois que aquele que queria ouvir tivesse dito o lhe parecia, então eu dizia contra.
Este é, pois, como tu sabes, o velho e socrático método de dissertar contra a opinião do outro. Pois Sócrates julgava que assim podia mais facilmente encontrar o que era mais parecido com a verdade.
Mas para que nossas discussões se desenvolvam de um modo mais adequado, vou expô-las assim, como a coisa se passa, não como narrada. Então o início nascerá assim:

9
– A morte me parece ser um mal.
– Para os que morreram ou para os que devem morrer?
– Para ambos.
– Logo é uma infelicidade, visto que é um mal.
– Sem dúvida.
– Então tanto aqueles para os quais já aconteceu de terem morrido, como aqueles para os quais acontecerá são infelizes.
– É o que me parece.
– Logo não há ninguém que não seja infeliz.
– Absolutamente ninguém.
– Então, na verdade, se queres ser coerente contigo, todos os que nasceram ou nascerão, não só são infelizes, mas também sempre infelizes. Pois se dissesses que são infelizes só os que devem morrer, tu certamente não excetuarias ninguém dentre os que estão vivos (pois todos devem morrer), no entanto haveria um fim para a infelicidade na morte. Uma vez, porém, que os mortos também são infelizes, nascemos para uma infelicidade eterna. É necessário, pois, que sejam infelizes os que morreram há cem mil anos, ou antes, todos os que nasceram.
– É exatamente assim que eu penso.

Autor: Cícero
Obra: Discussões em Túsculo
Trecho: Livro I, capítulos 7-9
Tradução: José Dejalma Dezotti
(inédita)

* O texto aqui reproduzido constitui uma expressão cultural da Antiguidade latina e foi selecionado como amostra exclusivamente para fins de pesquisa. Seu conteúdo não reflete a opinião do professor responsável pela postagem.

Categoria: Filosofia latina , Textos latinos

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