Com meu canto tentarei fazer do céu descer
as divinas artes e os astros, cientes do destino,
que variam os casos diversos dos homens, obra da razão celeste;
e ser o primeiro a comover com estes novos cantos
o Hélicon e suas florestas, agitadas no verde cimo,
ofertando sagrados saberes estrangeiros, por ninguém antes evocados.

A mim, ó César, da pátria primeiro homem e pai,
tu que reges o mundo submisso às tuas augustas leis e que mereces,
tu próprio como um deus, o céu concedido antes a teu pai,
me inspiras e fortaleces para cantar tamanhas coisas.

Agora o céu favorece mais de perto àqueles que o exploram
e deseja revelar, por meio da poesia, os atributos etéreos.
Só nos tempos de paz há vagar para tanto.
É um prazer atravessar o próprio ar e fazer da vida
um passeio pela imensidão do céu, e ainda conhecer
as constelações e os cursos opostos dos astros errantes.

Mas conhecer apenas isso é pouco. Prazer ainda maior
é conhecer o próprio coração do grande céu, entender
de que modo ele governa e gera com seus astros os seres vivos,
e, com a modulação de Febo, contar em verso.

Dois altares em acesas chamas luzem para mim,
a dois templos eu suplico, cercado por duplo ardor,
o poema e a matéria: este vate canta com regra precisa,
porém o céu, estrepitoso, com seu orbe imenso me assedia
e, para descrever-lhe as formas, mal ele permite a livre prosa.

A terra foi a primeira a poder
conhecê-lo mais profundamente, por dádiva dos celestes.
Quem, pois, embora eles o guardassem, teria clandestinamente
furtado os segredos do céu, por que tudo é regido?
Quem, de coração humano, teria empreendido tanto, que,
embora contrários os deuses, desejasse ele próprio parecer um deus,
revelar os percursos das estrelas e a extremidade inferior do orbe
e ainda os astros, pelo vazio celeste, obedientes aos seus próprios limites?

Tu, Cilênio, o primeiro, e autor de prática tão importante;
por meio de ti, já a abóbada celeste, mais profundamente,
já as estrelas foram conhecidas e também os seus nomes
e os movimentos das constelações, seu peso, suas influências,
para que tivesse mais grandeza a imagem do universo
e fosse digna de veneração não apenas a aparência
mas também a verdadeira energia dos astros,
e para que os povos conhecessem o deus
no modo em que mais poderoso era ele.

Também a natureza deu forças e ela própria se abriu,
dignada a inspirar, pela primeira vez, os ânimos de reis
que tocaram os fastígios das coisas, próximos do céu,
e que subjugaram povos selvagens até no Oriente,
por onde o céu retorna e faz seu voo
sobre cidades envoltas em escuridão.

Autor: Manílio
Obra: Astronômicas
Trecho: Livro I, versos 1-54
Tradução: Marcelo Vieira Fernandes
Imprenta: Dissertação, USP, 2006
Disponível em: https://www.doi.org/10.11606/D.8.2006.tde-23082007-123905

* O texto aqui reproduzido constitui uma expressão cultural da Antiguidade latina e foi selecionado como amostra exclusivamente para fins de pesquisa. Seu conteúdo não reflete a opinião do professor responsável pela postagem.

Categoria: Épica latina , Textos latinos

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