– Então – disse Agrásio – já que se discriminou de que tipo são os assuntos que têm de ser apartados da agricultura, ensinai-nos que saber específico há no cultivo, se é uma arte ou algo diferente e de que ponto de partida se dirige à meta (…).

Ele [Scrofa] respondeu sem incomodar-se:

– Em primeiro lugar, não só é uma arte, mas ainda uma arte necessária e importante; e é a ciência do que se deve plantar e fazer em cada campo para que a terra produza os maiores rendimentos continuamente.
Seus princípios são os mesmos que Ênio escreve serem os do mundo, água, terra, ar e fogo. Tais elementos, de fato, devem ser conhecidos antes de lançares as sementes, que são o início de toda produção.
Partindo disso, os agricultores devem guiar-se para duas metas, a utilidade e o prazer. A utilidade busca o lucro e o prazer o deleite; o que é útil tem mais importância do que o que deleita.
Além disso, o que torna um campo mais belo pelo cultivo geralmente não só o torna por si mesmo mais rendoso (como quando se plantaram arvoredos e olivais em fileiras), mas também mais fácil de vender e valoriza uma propriedade. Pois todo homem prefere pagar mais pelo que traz o mesmo proveito e é mais bonito do que pelo que é rendoso e feio.
O mais útil, porém, é o campo que é mais salubre do que os outros, porque nele o rendimento é certo; contrariamente, num insalubre, a ruína não tolera que o fazendeiro obtenha os frutos, mesmo que seja fértil. Com efeito, onde se ajustam contas com a morte, não só o rendimento é incerto, mas também a vida dos agricultores. Por isso, onde não há salubridade, a agricultura não é outra coisa senão o risco para a vida do senhor e para seus bens.
O conhecimento, porém, remedia esses problemas. Pois decerto a salubridade, que provém do céu e da terra, não está sob nosso comando, mas sob o comando da natureza, embora muito esteja a nosso alcance para podermos transformar com empenho grandes dificuldades em problemas menores.
De fato, se uma propriedade é um tanto infecta pelo miasma que em alguma parte se expele da terra ou da água ou, pela localização, o campo é quente demais ou não sopram bons ventos, tais defeitos costumam ser remediados pelo saber e recursos do senhor; eis o fundamental: onde as sedes foram construídas, de que tamanho são, para onde se voltam suas galerias, portas e janelas.

Autor: Varrão
Obra: Assuntos do campo
Trecho: Livro I, capítulos 3-4
Tradução: Matheus Trevizam
Imprenta: Doutorado, Unicamp, 2006.
Disponível em: http://repositorio.unicamp.br/jspui/handle/REPOSIP/271123

* O texto aqui reproduzido constitui uma expressão cultural da Antiguidade latina e foi selecionado como amostra exclusivamente para fins de pesquisa. Seu conteúdo não reflete a opinião do professor responsável pela postagem.

Categoria: Prosa técnica latina , Textos latinos

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