Entrementes, Aurora, surgindo, abandona o Oceano. Ao amanhecer sai das portas uma juventude escolhida; armados com redes de grandes malhas, laços e chuços de grande ponta de ferro, os cavaleiros massilienses avançam, seguidos de uma matilha de faro apurado. Os próceres púnicos esperam, na soleira do palácio, a rainha que ainda se encontra em seus aposentos, e ajaezado de púrpura e de ouro, lá se encontra seu cavalo sonipede, mordendo fogoso o freio coberto de espuma.

Afinal, ela se aproxima, acompanhada de um grande séquito, vestindo uma clâmide sidônia de orla bordada; sua aljava é de ouro, os cabelos estão presos por um grampo de ouro e um broche de ouro prende seu manto de púrpura. Com ela avançam os companheiros frígios e o belo Iulo; o próprio Enéias, o mais belo de todos, coloca-se ao seu lado e se junta ao grupo. Tal é Apoio, quando deixa a hibernal Lícia e o curso do Xanto e vai ver a materna Delo, organiza bailados e, misturados em tomo dos altares, agitam-se cretenses, e as dríopes e os pintados agatirsos; ele próprio avança pelos cumes do Cinto, prende com a coroa de delicada folhagem a cabeleira, e suas armas ressonam nos ombros: não mais majestoso caminhava Enéias; tão grande é a beleza que resplandece em seu rosto.

Depois de se chegar à montanha e aos bosques inacessíveis, eis que cabras selvagens desalojadas de um cimo rochoso, descem correndo das alturas; de outro lado, atravessando a correr os vastos campos, onde seus rebanhos levantam poeira, bandos de cervos deixam a montanha. E o pequeno Ascânio, no meio do vale, incitando com alegria seu fogoso cavalo, ultrapassa na corrida ora uns, ora outros, e faz votos para que se encontre, entre aqueles bandos indefesos, um javali espumando de raiva ou um fulvo leão descido da montanha.

Entretanto, grande troar se faz ouvir no céu; desaba a chuva misturada ao granizo; e, em desordem, os companheiros tírios e a juventude troiana, e o neto dardanio de Vênus, tomados de medo, procuram pelos campos abrigos dispersos; torrentes rolam das montanhas. Dido e o chefe troiano dirigem-se à mesma gruta. A Terra e Juno, deusa do casamento, dão primeiro o sinal; raios fulgem, brilham no éter cientes do conúbio, e as ninfas gritam do alto monte.

Aquele dia foi a primeira causa da morte e das desgraças de Dido; já não cuida ela de salvar seu nome e sua reputação, nem mais medita em um amor furtivo; chama-lhe consórcio; com este nome procura encobrir a culpa.

Autor: Virgílio
Obra: Eneida
Trecho: Livro IV, versos 129-172
Tradução: David Jardim Júnior
Imprenta: Ediouro, s.d.

* O texto aqui reproduzido constitui uma expressão cultural da Antiguidade latina e foi selecionado como amostra exclusivamente para fins de pesquisa. Seu conteúdo não reflete a opinião do professor responsável pela postagem.

Categoria: Épica latina , Textos latinos

Tags: