1 O mundo e tudo aquilo que, com outro nome, se convencionou chamar de céu, em cuja abóboda passam todas as coisas, é de se crer ser igual à divindade, eterno, incomensurável, e que não foi engendrado nem jamais perecerá.

2 Indagar o que está fora dele nem é de interesse para os homens, nem cabe na conjectura da mente humana. É sagrado, eterno, incomensurável, um todo no todo, ou melhor, o próprio todo, infinito e similar ao finito, preciso em todas as partes e similar ao impreciso, composto em sua totalidade de elementos externos e internos, ao mesmo tempo, obra da natureza e a própria natureza.

3 É uma loucura que alguns tenham refletido sobre sua medida e ousado publicá-la, que outros, por sua vez, aproveitando a ocasião, tenham relatado que há inumeráveis mundos, de modo que seria preciso crer-se em outras tantas naturezas ou, se uma única englobasse todas, em outros tantos sóis e em outras tantas luas, e todos os demais astros, mesmo num só mundo, incomensuráveis e inumeráveis, como se essas mesmas questões, no final, não iriam ocorrer sempre ao pensamento no desejo de algum fim ou, se essa infinitude da natureza pode ser atribuída ao artífice de todas as coisas, não é mais fácil que isso tudo seja entendido em uma unidade, sobretudo numa empresa de tal porte.

4 É uma loucura, uma autêntica loucura, sair dele e, como se já fossem perfeitamente conhecidas todas as coisas internas, assim perscrutar as externas, como se, na verdade, pudesse estabelecer a medida de alguma coisa quem não sabe a sua própria ou que a mente do homem pudesse ver aquilo que o próprio mundo não alcança.

5 Que sua forma é arredondada no tipo de um globo perfeito, o demonstram tanto o seu nome, principalmente, e o consenso dos mortais que o chamam globo, como também os argumentos da realidade, não só porque tal figura converge para si mesma com todas as suas partes e é passível de sustentar-se por si mesma e em si mesma está encerrada e contida, não carecendo de nenhuma sustentação e sem que se perceba nem o fim nem o começo de nenhumas partes suas, nem só porque tal figura é a mais adequada ao movimento, pelo qual – logo se verá – ela é girada sem parar, mas também por comprovação visual, já que de qualquer ponto se distingue a curvatura e o centro, quando isso não poderia acontecer em nenhuma outra figura.

Autor: Plínio o Velho
Obra: História natural
Trecho: Livro II, §1-5
Tradução: José Dejalma Dezotti
(inédita)

* O texto aqui reproduzido constitui uma expressão cultural da Antiguidade latina e foi selecionado como amostra exclusivamente para fins de pesquisa. Seu conteúdo não reflete a opinião do professor responsável pela postagem.

Categoria: Filosofia latina , Textos latinos

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