As palavras são de origem natural?

Públio Nigídio ensina nos Comentários gramaticais que os nomes não são invenção arbitrária do homem, mas que têm sua origem e sua razão na natureza, questão célebre nos discursos de filosofia. De fato, muitas vezes, perguntam-se os filósofos se as palavras existem pela natureza ou por uma convenção. Nigídio ofereceu muitos argumentos para que se pudesse notar que as palavras são mais naturais que arbitrárias. Dentre as provas, escolhi uma que me pareceu mais talentosa e agradável:

“Quando pronunciamos ‘vós’, o movimento da boca está de acordo com o som da palavra, a extremidade dos lábios avança sensivelmente e o som se dirige a quem falamos. Mas, ao contrário, quando dizemos ‘nós’, não emitimos o sopro para o exterior, nem pronunciamos com os lábios em projeção, mas os retemos, por assim dizer, para nós mesmos, o mesmo acontece quando dizemos ‘tu’ e ‘eu’ ou ‘ti’ e ‘mim’. Pois quando aprovamos ou reprovamos algo, os movimentos de cabeça ou olhos não precisam de relação entre a idéia e o signo que expressam. Pela mesma razão, as palavras que citamos resultam de um movimento natural da boca e do fôlego que corresponde a sua significação. Podemos observar que acontece o mesmo nas palavras gregas correspondentes às nossas, às que acabamos de nos referir.”

As palavras são ambíguas e incertas

Crísipo assegura que toda palavra é ambígua por natureza, já que pode ter dois sentidos ou mais. Diodoro, apelidado de Cronos, sustentava o contrário, dizendo:

“Não existe palavra ambígua. Não existe ambiguidade nem na palavra, nem no pensamento e na palavra somente se deve notar o pensamento de quem fala. Mas você compreende outra coisa que eu pensei: pois bem, existe mais obscuridade do que ambiguidade. Se houvesse ambiguidade, seriam ditas duas coisas ou mais de uma só vez. Contudo, não se diz duas coisas de uma só vez porque se pensa somente uma.

Autor: Aulo Gélio
Obra: Noites áticas
Trecho: Livro X, capítulo 4 e Livro XI, capítulo 12
Tradução: Cleuza Cecato
Imprenta: Dissertação, UFPR, 2005
Disponível em: https://hdl.handle.net/1884/7417

* O texto aqui reproduzido constitui uma expressão cultural da Antiguidade latina e foi selecionado como amostra exclusivamente para fins de pesquisa. Seu conteúdo não reflete a opinião do professor responsável pela postagem.

Categoria: Filosofia latina , Textos latinos

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