2 Compreendes por que razão se lhes chama “estudos liberais”: porque são dignos de um homem livre. No entanto, o único estudo verdadeiramente liberal é aquele que torna o homem livre; e esse é o estudo – elevado, enérgico, magnânimo – da sabedoria; os outros são brincadeira de crianças! (…)

20 (…) “Então, por que instruímos os nossos filhos através dos estudos liberais?” Não é porque estes lhes possam transmitir a virtude, mas porque preparam o espírito para recebê-la. Do mesmo modo que a “cartilha”, como lhe chamavam os antigos, pela qual as crianças aprendem as letras do alfabeto, não lhes ensina as artes liberais, mas torna-as aptas a poderem aprendê-las mais tarde, também as artes liberais não guiam o espírito até à virtude, mas facilitam-lhe o trajecto.

21 Posidónio considera que há quatro tipos de artes: as vulgares e inferiores, as recreativas, as educativas e as liberais. São vulgares as dos artesãos, simplesmente manuais, e dirigidas apenas aos objectos acessórios que usamos; nelas não há qualquer aproximação com a formação intelectual e moral.

22 As recreativas são as que têm por objecto o prazer dos olhos e dos ouvidos: entre elas incluirás, por exemplo, a arte dos maquinistas de teatro inventores de cenários que surgem sem se saber como, de estrados que se elevam no ar silenciosamente, ou ainda de outras invenções inesperadas: elementos antes unidos que se afastam, outros antes afastados que parecem unir-se por si mesmos, outros que se erguem no ar e lentamente vão descendo. Tudo isto atrai a atenção dos ignorantes, prontos a admirar todos os efeitos inesperados de que desconhecem as causas.

23 São educativas aquelas artes, já com algo de comum com as liberais, que os gregos chamam “enciclopédicas”, e os romanos igualmente chamam “liberais”. Verdadeiramente liberais, ou com mais propriedade, verdadeiramente “livres”, são aquelas cujo objectivo é a virtude.

24 Uma objecção possível: “Tal como a filosofia tem uma parte natural, outra moral e uma terceira racional, assim também o conjunto das artes liberais exige lhe seja dado um lugar dentro da filosofia. Quando se abordam as questões naturais, é imprescindível o contributo da geometria; logo, esta é a parte da ciência a que dá o seu contributo.”

25 Há muitas coisas que nos prestam o seu contributo sem por isso serem parte de nós mesmos; digo mais, se fossem parte não dariam contributo. A alimentação é um contributo, mas na?o uma parte do nosso corpo. A geometria presta-nos um determinado serviço, e por isso a filosofia necessita dela, tal como ela necessita de um técnico, mas nem é parte da geometria nem a geometria é parte da filosofia. Além disso, cada uma tem o seu domi?nio próprio: o sábio investiga e descobre as causas dos fenômenos naturais, o geômetra procura e calcula os números e as medidas.

Autor: Sêneca
Obra: Cartas a Lucílio
Trecho: Carta 88, §2 e §20-25
Tradução: J. A. Segurado e Campos
Imprenta: Calouste Gulbenkian, 2004.

* O texto aqui reproduzido constitui uma expressão cultural da Antiguidade latina e foi selecionado como amostra exclusivamente para fins de pesquisa. Seu conteúdo não reflete a opinião do professor responsável pela postagem.

Categoria: Filosofia latina , Textos latinos

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