19.1 A nova cidade fundada pela força e pelas armas, Numa, tendo assim tomado posse do reino, decide fundá-la de novo, pelo direito, pelas leis e pelos bons costumes.
2 Por ver que, em meio à guerra, era impossível acostumar-se a esses meios, por serem os ânimos embrutecidos pela militança, pensou que era preciso amansar o povo feroz pelo desuso das armas e construiu, ao pé do Argileto, o templo de Jano, como símbolo da paz e da guerra: aberto, indicaria que a Cidade estava em guerra; fechado, que ao redor todas as nações estavam em paz. (…)
4 Fechado o templo, visto que ele unira os ânimos de todos os vizinhos ao redor por pactos de aliança, abandonadas as preocupações com os perigos externos, para que não se desvigorassem na inatividade os ânimos que o medo dos inimigos e a disciplina militar tinham contido, pensou que devia, antes de tudo, incutir o medo dos Deuses, coisa eficacíssima para uma multidão inculta e, naqueles tempos, bruta.
5 Como não podia penetrar nos ânimos sem a simulação de algum milagre, finge ter encontros noturnos com a Deusa Egéria: [diz que] a conselho dela estabelece os cultos que eram mais agradáveis aos Deuses e determina para cada Deus os seus sacerdotes.
6 Antes de tudo, divide o ano em doze meses, segundo o curso da lua; e, como a lua não preenche trinta dias em cada mês e ficam faltando dias para inteirar um ano que corresponda a uma revolução do sol, ele o dispôs inserindo os dias entre os meses intercalados, de sorte que, em cada vinte anos, preenchida a duração de todos os anos, as datas coincidissem com a mesma posição do sol, da qual tinham partido.
7 Criou também dias fastos e nefastos, porque às vezes não conviria tratar com o povo de nenhuma questão.

20.1 Então voltou a atenção à criação de sacerdotes, embora ele pessoalmente desempenhasse a maior parte dos cultos, sobretudo os que hoje cabem ao flâmine dial. (…)
5 A seguir, dentre os patrícios elegeu pontífice Numa Márcio, filho de Márcio, e confiou-lhe uma lista pormenorizada de todos os cultos: com que vítimas, em que dias e em que templos os cultos se celebrariam, e de onde se tomaria dinheiro para as despesas.
6 Também sujeitou às decisões do pontífice todos os demais cultos públicos e privados, para que houvesse onde pudesse a plebe aconselhar-se, a fim de que não fosse perturbado algo do direito divino pela negligência dos ritos tradicionais e acréscimo de estranhos.

Autor: Tito Lívio
Obra: Desde a fundação da cidade
Trecho: Livro I, capítulos 19-20
Tradução: Álice Cúnio Machado Fonseca
In: Historiadores latinos, Martins Fontes, 1999.

* O texto aqui reproduzido constitui uma expressão cultural da Antiguidade latina e foi selecionado como amostra exclusivamente para fins de pesquisa. Seu conteúdo não reflete a opinião do professor responsável pela postagem.

Categoria: Historiografia latina , Textos latinos

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