Já que é do céu que este meu canto desce e de lá vem
para a terra a secreta ordem dos acontecimentos do destino,
devo antes cantar a natureza em seus verdadeiros contornos
e dispor a imagem de todo o universo.

A alguns parece que ele, tomando do nada os seus princípios,
é desprovido também duma origem, e de que sempre existiu
e haverá de existir, falto igualmente de início e de fim.

Ou talvez o caos, outrora, separou no parto
os elementos da matéria, antes misturados,
e a escuridão, depois de dar origem ao mundo brilhante,
fugiu, repelida para os abismos das trevas.

Pode ser que a natureza continue, depois de mil séculos,
um conjunto de átomos indivisíveis, que hão de retornar
ao mesmo estado unitário quando se desligarem entre si,
e que o todo se componha a partir do mínimo
e o mínimo se destine então a compor o todo,
e que a matéria inânime tenha construído o céu e a terra.

Quem sabe o fogo e as chamas é que executaram uma tal obra,
chamas tremeluzentes que deram existência aos olhos do firmamento
e estão presentes no conjunto todo de substâncias
e que também dão forma aos relâmpagos que cintilam no céu.

Ou ela foi gerada pela água,
que devora o próprio fogo por que é consumida
e sem a qual a matéria se enrijece, toda seca.

Ou então nem a terra reconhece um criador,
nem o fogo nem o ar nem a água, mas se articulam
os quatro e assim formam uma divindade:
construíram o globo do mundo e se opõem a que se busque
algo para além deles próprios, uma vez que por si mesmos
tudo criaram e não falta o frio ao quente,
nem o úmido ao seco, ou o fluido ao sólido;
e também porque se concerta entre as partes
um tipo de desconcerto que produz ligações bem ajustadas
e uma atividade fecundante, e que dá aos elementos
a capacidade de tudo produzir.

Tal disputa sempre haverá para a imaginação humana, e incerto
continuará o que oculto e tão acima está do homem e dos deuses.

Autor: Manílio
Obra: Astronomicas
Trecho: Livro I, versos 146-185
Tradução: Marcelo Vieira Fernandes
Imprenta: Dissertação, USP, 2006.
Disponível em: https://www.doi.org/10.11606/D.8.2006.tde-23082007-123905

* O texto aqui reproduzido constitui uma expressão cultural da Antiguidade latina e foi selecionado como amostra exclusivamente para fins de pesquisa. Seu conteúdo não reflete a opinião do professor responsável pela postagem.

Categoria: Épica latina , Textos latinos

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