19 Empédocles pensa que a alma é o sangue que derrama no coração; a outros pareceu que uma certa parte do cérebro mantinha o domínio da alma.
A outros não agrada que a alma seja o próprio coração ou uma certa parte do cérebro, mas uns disseram que a sede e a localização da alma é no coração, outros no cérebro.
Outros, porém, entendem que a alma é o sopro vital, como mais ou menos os nossos – o nome diz: pois nos dizemos “exalar o último suspiro” e “expirar” e “animosos” e “bem animados” e “do íntimo da alma”; o próprio termo “animus” (alma) provém de “anima” (sopro vital).
Para o estoico Zenão a alma parece ser fogo.
Mas, na verdade, essas opiniões que mencionei, coração, cérebro, sopro vital, fogo são comuns; as demais pertencem em geral a pensadores individuais, como muito antes os antigos, e mais recentemente Aristóxeno, músico e ao mesmo tempo filósofo, para o qual a alma é uma espécie de tensão do próprio corpo, como a que no canto e na lira se diz harmonia: assim conforme a natureza e a figura do corpo todo, se produziriam vibrações variadas tal qual os sons no canto.

20 (…) Xenócrates negou que houvesse uma figura da alma como se fosse um corpo; disse que era um número, cuja força, como já antes tinha parecido a Pitágoras, era predominante na natureza.
Seu mestre Platão imaginou um alma tríplice, cuja parte principal, isto é a razão, situou na cabeça, como que numa fortaleza, e quis que as duas outras partes, a ira e a desejo, que situou em lugares separados, a obedecessem: situou a ira no peito, o desejo embaixo do diafragma. (…)

22 Aristóteles, muito superior a todos – excetuando sempre Platão – pelo talento e pelo rigor, depois de ter admitido aqueles famosos quatro tipos de princípios, dos quais todas as coisas têm origem, considera que existe uma certa quinta natureza, da qual se compõe a mente.
Pois ele julga que pensar e prever, aprender e ensinar, descobrir algo e recordar de tantas coisas, amar e odiar, desejar e temer, sofrer e alegrar-se, estas e outras atividades semelhantes não se acham posta em nenhum desses quatro elementos.
Introduz o quinto elemento, carente de nome, e assim chama a própria alma com o termo novo endeléxeia, como se fosse um certo movimento continuado e perene. (…)
Deixemos, pois, de lado Demócrito, homem sem dúvida de grande valor, mas que faz que alma seja uma espécie de fortuito encontro de corpúsculos leves e redondos; pois nesses pensadores não existe nada que não seja efeito de um torvelinho de átomos.

23 Qual dessas opiniões é a verdadeira, só algum deus poderia saber; qual é a mais verossímil, essa é uma grande questão.

Autor: Cícero
Obra: Discussões em Túsculo
Trecho: Livro I, capítulos 19-23
Tradução: José Dejalma Dezotti
(inédita)

* O texto aqui reproduzido constitui uma expressão cultural da Antiguidade latina e foi selecionado como amostra exclusivamente para fins de pesquisa. Seu conteúdo não reflete a opinião do professor responsável pela postagem.

Categoria: Filosofia latina , Textos latinos

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